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Sexta, 09 de Agosto de 2019.

É preciso se aquilombar!
Confira como foi o primeiro dia do Seminário de Serviço Social e Direitos Humanos

Imagem do público durante o primeiro dia de evento, sentados na plenåria e a mesa de abertura ao fundo.

Assistentes sociais, estudantes e convidados/as lotaram o auditório no primeiro dia de evento (foto: Diogo Adjuto/CFESS)

 

É preciso se aquilombar! Esse é o sentimento que se espraiou pelo auditório do Senai-Cimatec, em Salvador (BA), durante o primeiro dia do 2º Seminário Nacional de Serviço Social e Direitos Humanos, organizado pelo CFESS e CRESS 5º região (BA). O evento, que ocorre nesta quinta e sexta (8 e 9 de agosto), é fruto de deliberações do 46º Encontro Nacional CFESS-CRESS e tem como debate central a questão racial.

 

A mesa de abertura fez questão de situar o significado histórico do Seminário, ainda mais em uma conjuntura de tantos retrocessos e de racismo escancarado, praticado, inclusive, por quem está no mais alto cargo do Poder Executivo.

 

A estudante Vânia Mota, da Enesso, ressaltou o significado do Seminário para a compreensão dos/as estudantes.

 

A presidente da Abepss, Esther Lemos, reafirmou a capacidade da categoria de fazer esse debate, seja pelo acúmulo no exercício profissional, seja no âmbito da pesquisa. Ela antecipou que a Abepss fará um levantamento dos currículos e grades de Serviço Social das Unidades de Formação (Ufas) para identificar aqueles que fazem o debate sobre questão racial. “É tarefa nossa fortalecer esse tema”, ressaltou, afirmando o compromisso da Associação no apoio as cotas raciais não só na graduação, mas também na pós-graduação.  Por fim, Esther repudiou a nomeação pelo governo federal do terceiro colocado para a Reitoria da Universidade Federal de Recôncavo Baiano (FRB), ao invés da mais votada, Georgina Gonçalves dos Santos.

 

Em seguida, a presidente do CRESS-BA, Dilma Franclin, fez uma fala de abertura organizada coletivamente por conselheiros e conselheiras negras das gestões dos CRESS, tendo em vista que o Seminário é uma deliberação do Conjunto CFESS-CRESS e que vários sujeitos participaram dos debates que definiram pela realização do evento. “Por isso, essa é uma fala de várias vozes e mãos. Queremos falar das nossas experiências enquanto ser. Vivemos em um país que não se responsabiliza pela sua história”, destacou. Durante a leitura do texto, Dilma ressaltou também que é momento de reconhecer o protagonismo e resistência das mulheres negras do Conjunto. “Somos muitas, espalhadas pelas escolas de Serviço Social Brasil afora, pelas entidades que dão direção à profissão no país, pelas frentes de lutas e pelos movimentos sociais, construindo bases com a classe trabalhadora”! 

 

Para concluir a mesa de abertura, a conselheira do CFESS Cheila Queiroz fez um breve histórico do debate da questão racial no Conjunto, de partir de 2003 até a atual Campanha de Gestão (2017-2020) Assistentes Sociais no Combate ao Racismo. “Vivemos um momento sufocante, de amplificação das expressões da questão social. A população usuária precisa reconhecer na categoria o nosso compromisso com a viabilização dos direitos e no combate a todas as formas de preconceito”, enfatizou. Cheila ainda fez um convite à categoria para participar do 16º Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS), que ocorrerá entre os dias 30 de outubro e 3 de novembro, em Brasília (DF), lembrando que a profissão já enfrentou conjunturas adversas desde a “Virada”, e, por isso, mobilização no CBAS será fundamental para se pensar estratégias coletivas para “enfrentar o governo fascista”. “Racistas não passarão!”, bradou de punho erguido.

 

Imagem da mesa de abertura, com a presidente da Abepss, conseheira do CFESS, presidente do CRESS-BA e representante da Enesso na mesa.

Mesa de abertura reuniu representantes da Abepss, CFESS, CRESS-BA e Enesso (na ordem da mesa) e emocionou participantes logo no início do seminário (foto: Diogo Adjuto/CFESS)

 

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”

A primeira mesa de debates teve o intuito de abordar a questão dos direitos humanos e o racismo no Brasil. Nesse sentido, a palestra do advogado, filósofo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Silvio Luiz de Almeida, foi essencial para apontar três eixos centrais desse debate: a questão racial a partir da raça e da economia política; o significado das lutas antirracistas; e a questão da raça e do capitalismo no cenário atual.

 

Na análise de Almeida, a maneira como aprendemos raça “está nos limites dos elementos do capitalismo”. Um deles é o de que o Estado é uma “máquina de guerra”, que promove uma política de extermínio daqueles que não sirvam ao sistema. E aí está a questão do genocídio negro. Assim, a discussão sobre a questão identitária deve ocorrer no sentido de mudar a estrutura, pois “estrutura não é que te engessa, mas que define os elementos para uma ação transformadora”. “Esse Estado e a ideologia foram constituídos pela ação humana e podem ser transformadas”.

 

O professor alertou para o fato de que o Brasil está num processo de morte, de destruição de tudo que se considera essencial. “A era do humanismo acabou. No Brasil, houve um processo de destruição da nossa cultura, de reconfiguração ideológica. A reforma da Previdência só está acontecendo porque houve destruição da ideia de solidariedade social”. Para finalizar, Almeida acredita que esse processo pode ser interrompido só com a luta por uma nova forma de sociabilidade. Ou, nas palavras dele, “dobrar a aposta”.

 

Em seguida, Sérgio São Bernardo, advogado e pesquisador/professor da Universidade Estadual da Bahia, apontou que o momento é desafiador para a categoria de assistentes sociais, que lida cotidianamente com o racismo. “A gente sabe que parte do referencial teórico do Serviço Social aponta para uma luta pelos direitos humanos por dentro das estruturas institucionais. Como fazer isso agora, com o atual governo?”, tensionou. O pesquisador alertou para o problema de se tentar dividir o debate entre raça e classe. “Raça não é um conceito científico. O racismo é de Estado. Temos história e dados para isso, para mostrar que o racismo é estrutural”.

 

Imagem de dois advogados durante a primeira mesa de debate do seminário, no momento em que um deles está com a fala. Advogados Silvio de Almeida (esq.) e Sérgio São Bernardo (dir.) compuseram a mesa de debate da tarde (foto: Diogo Adjuto/CFESS)

 

E para “incendiar” a plenária, as representantes do movimento e campanha “Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta”, Lígia Bitencour  e Silvana  Santos, denunciaram o genocídio da população negra de Salvador e do Brasil. “Somos uma articulação de movimentos e comunidades de negros e negras da capital e interior do estado da Bahia, articulada nacionalmente e com organizações que lutam contra a brutalidade policial, pela causa antiprisional e pela reparação aos familiares de vítimas do Estado (execuções sumárias e extrajudiciais) e dos esquadrões da morte, milícias e grupos de extermínio”, explicaram.

 

Lígia foi ainda mais a fundo: “O genocídio independe do governo. É de Estado. As instituições se colocam como inimigas e por isso não resolverão o problema. Temos que reconhecer as limitações da institucionalidade e, principalmente, acender a fogueira. Salvador tem um milhão de pessoas desempregadas. Por que não estão aqui fazendo esse evento pegar fogo?”, provocou.

 

As militantes da Reaja sinalizaram a necessidade de autonomia dos movimentos sociais, provocando a plenária no sentido de que “é preciso voltar a fazer militância fazer sem edital”.

 

Por fim, as integrantes do Reaja reforçaram a necessidade de se aquilombar. “Quilombo não é qualquer coisa. É território de pessoas pretas gerido por pessoas pretas para pessoas pretas”.

As atividades do primeiro dia foram encerradas com o poder da cultura vocalizado pelo recital Vozes Negras.

 

Imagem das duas representantes do Movimento Reaja ou será morta, Reaja ou será morto na mesa da tarde. Silvana Santos (esq.) e Ligia Bitencourt (dir.), representantes da Reaja, destacaram a urgência da luta nas ruas em defesa dos direitos e da população negra (foto: Diogo Adjuto/CFESS)
 

 

Confira outras imagens!

 

Imagem de cima do palco, com o grupo da atividade cultural à frente, e o público ao fundo, todos com as mãos levantadas. Atividade cultural emocionou os/as participantes (foto: Diogo Adjuto/CFESS)
 

Imagem do público de frente, de cima do palco, com a plenåria lotada.

Cerca de 600 pessoas participaram do primeiro dia do seminário (foto: Diogo Adjuto/CFESS)

 

Imagem do credenciamento do evento, no momento em que uma recepcionista entrega o material a uma participante. Participante recebe o material do evento, com publicações do CFESS, durante o credenciamento (foto: Diogo Adjuto/CFESS)

 

Imagem da atividade cultural ao fim do primeiro dia, com apresentação do Recital Vozes Negras, com três mulheres negras e dois músicos no palco. Atividade cultural "Recital Vozes Negras" encerrou o primeiro dia do seminário em Salvador (foto: Diogo Adjuto/CFESS)


 

 

Assista ao vídeo do primeiro dia de evento


 

 

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