Quinta, 31 de Outubro de 2013.
Relembrar o período ditatorial é difícil, mas fundamental para a história do Serviço Social
Projeto que reúne histórias de assistentes sociais que sofreram violações de direitos ainda está recebendo material. Divulgue e participe!
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Montagem de fotos com recortes de jornais e imagens de assistentes sociais que sofreram violações de direitosColagem digital de documentos que o CFESS já recebeu para o projeto Serviço Social, memórias e resistências contra a Ditadura. À esquerda, Maria Lúcia, e à direita, Bia Abramides. (arte: Rafael Werkema/CFESS) 

 

O ano é o de 1968. Maria Lúcia Souza, assistente social alagoana, havia passado horas na prisão, acusada de subversão pelo Regime Militar. Ela trabalhava no Serviço de Orientação Rural em Alagoas. Na sua ficha, disseram que ela cometeu atos contra a Segurança Nacional, distribuindo panfletos “subversivos” à população camponesa. Ser da esquerda era crime. E não era a sua primeira vez na prisão. Em 1966, fora detida pelo mesmo motivo, quando saía de um Encontro Nacional de Estudantes de Serviço Social em Salvador (BA). Mas agora, seu crime era considerado maior. E sua pena também seria. Conseguiu um habeas corpus. Foi liberada. Meia hora depois, chegou uma ordem para que ela não fosse solta de modo algum. A partir daí, teve que se refugiar e viver na clandestinidade por 11 anos.

 

O ano ainda é o de 1968. Só que agora vamos para o município de Ibiúna (SP), onde acontecia o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). Na ocasião, mil estudantes sofreram repressão e acabaram na prisão. Entre as pessoas que estavam lá, a então presidente do grêmio da Escola de Serviço Social (GESS), Maria Beatriz Costa Abramides. Presa, enquadrada na Lei de Segurança Nacional, sofreu tortura psicológica, discriminação e preconceito. Foi chamada de “puta” pelos militares que, quando a revistaram, encontraram uma cartela de pílula anticoncepcional. Na prisão, numa cela minúscula com outras 39 mulheres, ouviu os gritos das pessoas sendo torturadas. Tudo isso aos 19 anos.

 

Estas duas histórias, recortadas de um denso material recebido pelo CFESS, revelam um pouco do período sombrio, violento, repressor do Brasil. Anos nos quais, vários sujeitos, numa histórica trajetória de lutas sociais, sofreram tortura e morreram em defesa da liberdade, da justiça social e da revolução. E entre essas pessoas, estavam assistentes sociais e estudantes de Serviço Social.

 

Para identificar e contar a história delas, o CFESS lançou, em maio deste ano, o projeto “Serviço Social, memórias e resistências contra a Ditadura Militar”, que tem a intenção de retirar do anonimato e coletar depoimentos de assistentes sociais que vivenciaram violações de direitos em função da Ditadura.  A ideia é que relatos, como os do início desta matéria, sejam organizados em um livro, que será entregue à Comissão Nacional da Verdade, em 2014.

 

Divulgação e adesão da categoria

Mas para o projeto ter as cores do Serviço Social brasileiro, é preciso que o maior número de pessoas envie seus relatos (veja as instruções), para dar visibilidade às lutas e resistências de assistentes sociais em tempos sombrios de ditadura militar. 

 

“Não queremos deixar ninguém de fora. São muitos os sujeitos no Serviço Social que contribuíram, de alguma forma, na luta contra a repressão. E mais: precisamos romper com o anonimato e invisibilidade dessas pessoas que vivenciaram as inúmeras facetas da desigualdade e da opressão”, destacou a coordenadora da Comissão de Ética e Direitos Humanos do CFESS (CEDH), Marylucia Mesquita.

 

Entretanto, trazer estas histórias à tona pode ser, muitas vezes, uma tarefa difícil para quem sofreu a violência da Ditadura. “Quando você fala, revive, porque o inconsciente não tem tempo. Por isso, eu admiro muito companheiras que assumiram esta batalha muito mais cedo. Eu briguei contra esse silêncio pela militância”, afirmou a assistente social e professora Marilda Iamamoto em uma entrevista ao informativo Práxis (Edição 72 de julho/agosto de 2013), do CRESS-RJ, que reservou a capa e mais três páginas da publicação para o tema. Iamamoto e a assistente social Mariléa Porfírio contaram em entrevista sua trajetória de luta e resistência. Ambas eram da Ação Popular e trabalhavam no antigo Instituto Nacional do Seguro Social (INPS), hoje INSS, quando foram sequestradas, presas e interrogadas. Ficaram incomunicáveis por quase um mês e, quando foram soltas, haviam sido demitidas (leia a matéria completa no site do CRESS-RJ).

 

“Relatos como estes têm que estar também na nossa publicação. Por isso, parabenizamos a iniciativa do CRESS-RJ e reforçamos que é fundamental que os CRESS façam a divulgação do Projeto e, principalmente, que as pessoas enviem seus relatos ao CFESS”, afirmou Marylucia.

 

No Práxis, Marilda defendeu a importância do projeto Serviço Social, memórias e resistências contra a ditadura militar, do CFESS, “para dar transparência à memória e à luta dessa categoria. Ainda que o projeto ético-político esteja mais referenciado no Congresso da virada, em 1979, essa luta é muito anterior”.

 

Divulgue e participe do projeto Serviço Social, memórias e resistências contra a Ditadura Militar

 

Imagem da capa do Jornal Práxis mostram um arquivo sendo aberto e dele saem mãos de pessoas que pedem socorro

Capa do informativo Práxis trouxe histórias das assistentes sociais Marilda Iamamoto e Mariléa Porfírio (reprodução do site CRESS-RJ)

 

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